
"O futebol cearense é reflexo do que somos, do que pensamos e do que fazemos em nossas vidas." (Benê Lima)
OPINIÃO
FUTEBOL FEMININO: UM BALCÃO DE ACHAQUES
O grande filósofo Maquiavel nunca esteve tão presente, numa sociedade tão mutante e influenciável pelo desvalor quanto a que vivemos
Toda minha aproximação com o futebol feminino deveu-se a uma figura exponencial dessa modalidade no estado do Ceará, a quem presto certa reverência, por ser pessoa séria, trabalhadora e competente naquilo que escolhe empreender. Trata-se do Professor Sérgio Ricardo, Presidente da Liga Cearense de Futebol Feminino (LCFF), pessoa que esteve à frente da organização do 1º Seminário Cearense de Futebol Feminino, um marco do esporte amador em nosso Estado.
Na condição de coadjuvante, estive, ao lado do Professor Sérgio, batendo em muitas portas, mas poucas foram as que se abriram, mesmo que fosse para a mera oferenda de um óbolo ou algo simbólico tal qual o antigo ósculo. No entanto, hoje vemos prosperar um discurso falsamente pro futebol feminino, embora os discursantes demonstrem não saber qual a real importância do desenvolvimento desta e de outras modalidades esportivas.
Talvez esteja exatamente neste ponto a razão para a promoção de competições sem o devido esmero, sem o necessário acompanhamento, sem o indispensável apoio logístico aos clubes, sem a consentânea divulgação, desprovidas do verdadeiro espírito sócio-desportivo.
Não considero de modo algum nossos cartolas como cachorros mortos, nem me anima criticá-los para sobre eles tentar edificar a minha imagem, seja ela qual for. Mas também não pensem eles que somos vesgos, a ponto de não os enxergarmos em suas reais perspectivas. E, convenhamos, vistos desse modo, percebe-se nitidamente um latente cinismo em seus discursos, quando diante de câmeras e microfones ‘transformam-se’ alquimicamente em apoiadores daquilo que, se não detestam, são completamente indiferentes.
Lembro apenas que, se ao grande público é difícil separar o joio do trigo, para nós que vivenciamos todo o espectro de que é composto o futebol feminino, nem tanto. Na verdade, para nós a regra é sabermos quem é quem, é conhecermos os aproveitadores, os oportunistas, os ‘barrigas de aluguel’, os ‘laranjas’, os ‘malas’, os de pouca ou nenhuma identidade com a causa do futebol feminino, entre outras aleivosias.
A Liga Cearense de Futebol Feminino (LCFF), da qual me orgulho em fazer parte como diretor técnico e assessor de comunicação, sem dúvida é hoje a mais legítima representante de um fazer esportivo renovado, aquele que se preocupa com o aspecto educacional, com a inclusão social, com o exercício da cidadania, com a melhoria da qualidade de vida enfim.
Infelizmente a ‘burrocracia’ e seus componentes subjacentes perversos, como o tráfico de influência, acabam por deixar esquálidas as idéias e projetos, privilegiando os apaniguados do poder, entre outros do gênero.
E por não levarem em conta a meritocracia, assistimos ao descaso com que o futebol feminino tem sido tratado, e o maior exemplo disto pode ser visto na atitude (ou falta dela) dos dirigentes de nossos dois maiores clubes profissionais, Ceará e Fortaleza, que em seus sites oficiais dão pouquíssimo destaque à modalidade, e quando o fazem é com tamanho desdém que nem se importam de noticiarem fatos inverídicos, como prorrogações que não existiram, como foi o caso recente verificado no site oficial do Fortaleza.
No Ceará, o futebol feminino também é tido como um corpo estranho ou filho bastardo, enfrentando a rejeição da grande maioria e o deboche de outros. Tudo isso porque, no fundo, nossos gestores não conseguem se despir da condição de meros torcedores, pois eles têm de estar sempre provando para a platéia que o futebol tem sim o seu poder de imbecilizar pessoas consideradas inteligentes.
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EFEMÉRIDES
Roteiro que se repete
Nunca uma equipe causou tanta polêmica e falta de compreensão dos que se dizem analistas, quanto esta do Fortaleza. De fato, não é qualquer formação que dá às pessoas a condição de saberem lidar com as sutilezas. Vivemos sob o império do generalismo, das dicotomias, do maniqueísmo, e isso dificulta sobremodo a compreensão de algumas de nossas realidades circundantes.
Além de não ser definitivo, nada é sequer conclusivo na atual situação do Tricolor do Pici. Até porque o futebol jogado se reveste, sem dúvida, de uma relativização incomum, razão pela qual as verdades que dele se inferem não carregam prazo de validade, pois que podem esgotar-se na mesma velocidade da dinâmica que lhe é inerente.
Para quem nos acompanha amiúde, desde o Cearense temos dito da fragilidade defensiva da equipe, menos a partir de seus zagueiros e mais a partir de seus meias e volantes. Na atual temporada, a equipe leonina não conseguiu um equilíbrio entre seus setores, nem a necessária consistência defensiva, nem uma transição defensiva equilibrada, nem a compensação advinda da complementaridade das diferentes características de seus jogadores.
Vale dizer que, a observação simplória não se presta a nos dar o diagnóstico necessário para o entendimento da crise de resultados do time. É preciso que se tenha um nível de compreensão sobre a dinâmica do futebol bem acima da média, para só assim podermos ingressar na seara da identificação dos problemas, bem como na indispensável ação profilática.
Portanto, cabe dizer que o elenco tricolor tem sido sistematicamente mal-formado, e a principal razão disto é que a alguns conceitos não se tem dado o devido valor. Imagina-se, é o que parece, que a formação de um elenco é uma mera escolha de nomes, sendo esse o mais renitente dos equívocos cometidos. E o pior é que a média das opiniões têm convergido para este ponto, dando certa sustentação a uma situação enganosa.
E, diante do sem número de tentativas de contratações, vê-se claramente a falta de critério e de entendimento do real problema da equipe. E aqui o singular é meramente focal, já que sabemos que o plural é que expressaria a problemática.
Derrota aceitável
Dois jogos em um, duas realidades distintas dentro uma mesma partida para Figueirense e Ceará. Algo anormal, não fora o esporte o futebol. Por também essa característica de alternância da realidade do jogo, é tão interessante o jogo jogado, com suas ações e reações, com suas valências e prevalências, com sua contestação à mesmice, com a escrita de novos roteiros em uma realidade de dinamicidade que nos enche os olhos e a mente.
Poucos acreditavam, racionalmente, que o Alvinegro cearense tivesse forças para reagir ao futebol de vontade empedernida do Figueira. E eu estava entre os muitos que não acreditavam. Mas uma saudável queda do cavalo me sobreveio, causando-me admiração o poder de reação de uma equipe que tem primado pelo sentido coletivo do jogo.
Melhor foi testemunhar que mesmo abatida em 20% de seu efetivo, pela perda de dois de seus guerreiros, a equipe se superou e encontrou forças, organização e futebol para mudar a difícil realidade da partida, o que nos fez aceitar com parcimônia uma derrota a que lamentamos tão unicamente por sabermos que a vitória era perfeitamente factível.
Até concordamos que em mundo de competição exacerbada, aceitar perder não faz parte nem mesmo da ação discursiva. Contudo, de nós para nós, há casos em que até a derrota nos traz certo alento, talvez pela convicção de que a potencialidade produtiva de uma equipe seja fator mais confiável que vitórias e derrotas episódicas.
Benê Lima
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